Sempre fui avesso a crucificações e a julgamentos surreais seguidos de fuzilamentos sumários e, como tal, o que hoje está a suceder com Rui Patrício é lamentável.
Rui Patrício, para quem não sabe, chegou a Alvalade com 11 anos, recrutado pelo Mestre Aurélio Pereira, e daqui a uma semana, fará 22 anos e estreou-se na equipa principal do Sporting, em 19 de Novembro de 2006, num desafio em que protagonizou uma excelente exibição e, inclusivamente, defendeu um penalty.
Ao longo sua ainda curta carreira, afirmou-se no Sporting, foi internacional de sub-18, de sub-19 e foi titular da selecção nacional no último Mundial de sub-20, tendo sido o melhor jogador da equipa das quinas nesta competição e o seu nome, depois das convocatórias para a selecção-A , é incontornável no futuro imediato do futebol português.
Hoje, com contrato até 2013, depois de vários jogos em que graças a exibições suas somámos importantes triunfos – (a memória de alguns é curta) - e com uma cláusula de rescisão de € 20.000.000,00, Rui Patrício, um jogador corajoso, leal, excelente profissional e excelente colega que, desde muito jovem, teve de assumir a defesa das redes do Mítico Sporting Clube de Portugal, atravessa dificuldades. Dificuldades essas que têm inúmeras causas, entre as quais aponto o facto de jogar num conjunto que está longe, muito longe, de poder ser qualificado como: Equipa.
As razões de não termos uma Equipa são várias e este artigo não visa escalpelizar essas razões que, noutros artigos publicados por redactores da Centúria Leonina, têm vindo a ser indicadas.
Com efeito, hoje queria que nos centrássemos na defesa do Rui Patrício e, por consequência, na defesa do Sporting.
Queria que, com exigência, com honestidade intelectual, com elevado sentido de responsabilidade, todos tentassem perceber como deve ser jogar na baliza do Sporting com todos os problemas que existem, problemas esses que existem desde a base da pirâmide até ao topo. Queria que tentassem visualizar a defesa do último reduto quando à vossa frente, às vezes aqui, outras vezes ali, se claudica, se falha, se teme, se hesita... quando não há cultura, quando não há filosofia, quando não há uma dinâmica de vitória, quando não há espírito vencedor, quando não há organização, quando não há liderança em campo e fora dele, quando, enfim, não há Sporting! Como é que se pode ser Guarda-Redes do Sporting se não há Sporting em campo, ou se há, de vez em quando, uma "sombra", um "resquício" de Sporting?
Neste momento, e face ao que se está a passar, é preciso proteger o atleta, nem que para isso, ele tenha de ir para o banco durante este período negro. Haja visão para aferir e salvaguardar o valor deste jogador.
Bem sei que o Futebol é pródigo na formação de autodidactas que, por observação, por intuição, por crença, avaliam tudo e todos. Em todas as bancadas do Mundo, mas principalmente nas nossas, é frequente “queimar-se” o que é nosso. Isto é, aquilo que muito bom adepto critica nas estruturas do Clube – (que não sabemos preservar os nossos e que tratamos mal os da “casa”) – acaba por fazer, ao vivo e a cores, em pleno Estádio de Alvalade.
Foram várias as vezes a que assisti a indecorosos assobios àquele 7, de seu nome Luís Figo, porque fintava e caía no chão... e se pedia a entrada de... Capucho... foram também, muitas as vezes que assisti a insultos ao último grande 8 que tivemos, Pedro Barbosa, porque insista, porque persistia... depois, o mesmo sucedeu com Quaresma e Nani... – (creio que muitos desses que assobiavam estes jogadores que perdiam “a bola” numa finta, num drible, ainda não perceberam que a própria equipa estava preparada para tal, pois existem jogadores que, pela posição em que jogam, pelas qualidades que têm, são os que, em prol do colectivo, têm de romper, têm de rasgar, têm de arriscar, têm de imprimir velocidade, têm de mudar a história e o ritmo do jogo, têm de se atrever... sendo certo que é possível, para desespero dos adeptos mais ansiosos e inseguros, que ocorra uma “perda de bola”... ). Houve também outros episódios com jogadores de valor...
Porventura, quando o Rui Patricio, um dia estiver noutro clube, talvez aí, alguns percebam a qualidade que ele tem.
Citando Aurélio Pereira: “O importante não é ver aquilo que toda a gente vê, importante é ver aquilo que ainda poucos vêem ou o que ninguém consegue ver.”
E esta regra, aplica-se aos jogadores quando são jovens, mas aplica-se também, em grande medida, a muitas outras realidades.